14 de Junho 2009 - Dia de descanso - Fim da Viagem
Depois de um bom banho que apenas aliviou por uns minutos pois rapidamente fiquei pegajosa de novo tal é o grau de humidade do ar, fomos almoçar. Depois do pequeno-almoço apenas beliscamos uns cajus que compramos na fila da barcaça, tinha o estômago colado às costas mas nem sentia fome, apenas um estado de carência que explodiu quando entramos na cervejaria Tamar, perto do Hotel. Devorámos a linguiça, os camarões cozidos, todo o pão que lá existia e o stock de manteiga.
Fomos dar uma volta a pé pelas imediações do Hotel, descemos até avistar o porto, passeamos pela avenida principal de Bissau e estacionamos na esplanada Baiana para uma bebida onde conversámos até ser noite. Em frente ao Hotel há o restaurante “O Porto”, também ele propriedade de um português e ponto de encontro luso, onde acabamos a noite a comer pregos.
Domingo de manhã, acordámos preguiçosos, tomamos o melhor pequeno-almoço da viagem e fomos à descoberta de Bissau. O Azevedo sabia de um mercado muito característico e lá fomos negociar táxis para todos. Por 400 CFA cada táxi, rumamos ao mercado de Bandi, ao cimo da avenida principal, junto à entrada da cidade. Entrei noutro mundo. A confusão era total. O mercado começa na estrada, estende-se aos passeios, entranha-se por toldos, casas e vielas. Por todo o lado há bancas de aglomerado com artigos expostos. Vende-se de tudo, mas tudo mesmo. Bancas de talho com nacos de carne cheios de moscas e pessoas a escolher o melhor bocado misturam-se no mesmo espaço com um especialista de manicura que tem meia dúzia de vernizes coloridos e uma garota de unhas compridas como cliente, bancas de legumes e de moscas cruzam com bancas de roupas coloridas e fatos de treino, ao lado de bancas de peixe e bocados de espinhas cheias de moscas e lojas com materiais de construção, baldes, cafeteiras, panelas e arames, banquetas com comprimidos azuis e outros elixires de potencia, mulheres com alguidares de cajus e frutas e moscas, sacos de arroz da Tailândia amontoados junto às paredes à mistura com sacos de fertilizante e químicos, moscas, carpinteiros a fazer portas e camas trabalhadas com torneados, muitas zonas de lojas cheias di-apa-re-lha-gem-di-som, te-le-move, al-ta-tec-nó-lo-gia, ri-ló-gios, tudo importado com marcas altamente orientais, música alta, muito alta, moscas, muita gente a vender, muita gente a comprar, é Domingo de manhã, dia de mercado.
As vendas entopem as ruas com estendais de artigos e lixo nas bermas, as vendas entram em espaços tapados que era suposto serem mercados oficiais mas que estão congestionados de negócio, há apenas uns corredores muito estreitos por onde as pessoas circulam, se alguém pára a ver uns artigos toda a fila de gente que vai atrás pára também, dá-se o caos de engarrafamento, o calor é sufocante. Entrámos e saímos de ruas e carreirinhos, fomos olhados com espanto, pisámos bocados de couve podre, enjoámos com o cheiro do peixe a secar, ensurdecemos com o despique da música mais alta, ora em praças destapadas ao sol, ora em vielas escuras, constantemente assaltados pelas moscas.
Já era tempo de acabar a visita. Vamos descansar até uma esplanada. Na falta de táxis e na falta de negociação de um preço razoável, fomos para a paragem do autocarro local chamado de toca-toca, um sistema de transporte urbano, empresarial, composto por carrinhas comerciais azuis Ford, Toyota, Mercedes e outras, esmurradas e ferrugentas, com bancos corridos nos lados, entra-se ou pela porta do fundo ou pela lateral e paga-se 100 CFA. Há dezenas delas a passar constantemente, avenida acima, avenida abaixo. Conseguimos convencer um a levar-nos directamente à esplanada Baiana, onde desembarcámos debaixo dos olhares espantados dos clientes ocidentais que têm altas máquinas de todo-o-terreno e da empregada que tira macacos do nariz enquanto atende os clientes e que depois de pagarmos passa a vida a dizer – não tem troco.
O calor era insuportável, a atmosfera com um grau de humidade impossível, estamos constantemente a transpirar, parece que está sempre prestes a chover. Após um almoço no restaurante frente ao Hotel, a tarde foi passada a vegetar por ali. Hoje é o regresso a casa, vou arrumar a tralha, ver o que levo comigo e o que tem de ir dentro do carro de apoio, dentro do contentor. Em Bissau é aconselhável fazer o check-in no aeroporto 4 horas antes do voo, pelo menos. Pedimos o apoio do Alexandre que conhece todos os procedimentos necessários. Lá fomos ao princípio da noite ao aeroporto para confirmar o lugar e despachar a bagagem. Mais uma experiência alucinante.
De boleia no carro de serviço do Hotel e acompanhados pelo funcionário já experiente nestas coisas, chegámos a um local ermo e escuro onde se avistava a luz de umas quantas lanternas – isto é o aeroporto???? Sim, daqui a pouco já vão ligar os geradores, disse o nosso acompanhante. Ao que parece, o aeroporto está normalmente fechado e só abre quando há voos. Tem um gerador para garantir o funcionamento pois não há energia eléctrica na cidade.
Frente à porta principal do aeroporto já se alinhavam três carrinhos de bagagem, em filinha, uma fila que começou a ser negociada. É que a entrada no aeroporto para o check-in é toda ela negociada com os funcionários da porta, o processo de check-in é moroso e complicado a as malas arriscam-se a ficar em terra e os últimos arriscam-se a perder o lugar no avião. Por isso há que fazer o check-in o mais cedo possível para garantir o lugar de volta a Portugal. Assim, os primeiros a entrar no aeroporto, tratar de despachar as malas e receber o bilhete são os que têm hipótese de entrar no avião, além do que é mais certo que as malas venham no mesmo avião. África é assim e para mim tudo isto foi uma novidade espantosa.
Curiosa com esta realidade, os meus sentidos estavam a trabalhar a 200%. O nosso acompanhante tratou de cumprimentar todos os funcionários importantes, dizer que “é mala di branco” e lá conseguiu também cumprimentar a alta individualidade do chefe dos guardas do aeroporto, um homem mais idoso, magro e ressequido que comandava a ordem da fila de entrada, atendia o telemóvel constantemente a prometer passes de entrada para quem queria vir esperar familiares e estava de plantão a barrar a porta e a verificar os passaportes. Eu e o Ricardo Azevedo tivemos o “privilégio” de entrar rapidamente e mais uma fila para verificar se estamos na lista de passageiros do avião. Uma lista impressa em papel contínuo, com a tinta esmorecida que obrigava o respectivo funcionário a iluminar a lista com uma lanterna adicional, não sei se pela fraca iluminação do aeroporto se pelo fraco domínio da arte da leitura e que teve a ajuda de uma moça a explicar que caso não conseguisse encontrar os nomes seria mais fácil ir pelo número da reserva, o qual estava por ordem.
Ao lado, a revista da bagagem, duas funcionárias que vasculhavam manualmente as malas dos passageiros, encostadas a um scanner moderno mas desligado. A única máquina que funcionava era a porta de detecção de metais que nem detectou a resma de chaves de casa que eu tinha no saco de depósito da moto que trazia a tiracolo. Numa banca estreita com um pequeno terminal de computador, o funcionário emitia os bilhetes à mão e os identificadores da bagagem, também eles manuscritos, após consultar a lista no monitor azul com letras brancas enormes. Lá fora a fila de passageiros aumentava, a confusão aumentava mas entravam um a um para não fazer confusão dentro do espaço de check-in, espaço que não devia ter mais de 25 por 10 metros. Fiquei sem saber se é uma triste realidade se é uma questão mais relacionada com a cultura dos povos.
Voltámos ao Hotel para jantar e fazer tempo até à uma da manhã, hora que regressámos ao aeroporto depois de sabermos que o avião estava atrasado. A sala de embarque é simples, tem cadeiras de madeira corridas e a um canto um free shop com produtos de artesanato alinhados no chão, lenços e vestidos de cores garridas pendurados na parede, uma banca cheias de colares e pulseiras de motivos tribais por onde passeava uma colónia de baratas mas onde os produtos são a metade do preço que nas bancas de rua para turistas. O avião chegou e estacionou tão encostado à vidraça da sala que abanou toda a estrutura.
Aterrei em Lisboa ao nascer da manhã, aterrei no trânsito da 2ª circular que me demorou mais tempo a chegar a casa que o tempo que demorou a fazer os 50 km de pista entre Varela e S. Domingos, aterrei na realidade.
Crónica de uma viagem de moto, entre Lisboa e Bissau. Um diário onde, em cada dia, escrevi todos os passos desta aventura - preparativos, estados de espírito, a Viagem com todas as sensações, cheiros e cores. Se apareceu pela 1ª vez, use os tópicos no lado direito da página para ler desde o início da crónica. Se está a voltar, obrigada. Em qualquer dos casos, se tiver comentários, são muito bem-vindos.
Varela - Bissau
13 de Junho 2009 – 15º dia de viagem
Percurso: 150 km
Total time: 6 horas
Saímos de Varela encantados com a hospitalidade. De novo os 50 km de pista difícil que não acabava, a ponte de ferro e traves, estrada de terra, lombas e buracos. Em Santo Domingo lá estava a minha motita à espera, no mesmo local, com os mesmos polícias sentados à sombra mas de traje à civil, hoje é sábado.
Pelo asfalto, em direcção ao destino, a viagem foi pacífica. Chegada ao rio Cacheu e ponte nova à vista, mas apenas à vista pois está pronta acabadinha de construir mas fechada ao trânsito à espera da inauguração oficial com pompa e circunstância. Desvio para uma entrada em terra de acesso ao cais da barcaça que nos levará ao outro lado. Quando vi a barcaça até me assustei. Tinha feito 6.000 km para isto. Chamam barcaça a uma coisa flutuante, com mais de 50 anos, de madeira carcomida e ferro ferrugento que range e flutua como por milagre, entulhada de carros, de gente, de animais e camiões TIR carregados de sacos. Uma fila esperava a entrada na barcaça, meia dúzia de carros e meia dúzia de camiões, estacionados sob um sol escaldante e rodeados por pequenas barracas de madeira podre onde se vendem latas de bebida mantidas em arcas de campismo, arroz cozinhado em potes velhos e nojentos, mangas e mangas secas e podres, tudo rodeado de lixo e infestado por moscas. Um camião TIR ensaiava entrar e sair da barcaça a ver se cabia, a barcaça abanava, rangia e a linha de água subia até fazer desistir o camião de passar naquela leva. Lá foi ela, sem o camião e lá ficamos nós à espera quase duas horas, a torrar ao sol, estômago colado às costas, a desejar que continuasse a haver barcaça para chegarmos ao destino.
Quando por fim embarcámos, no fim da linha, no extremo da plataforma flutuante, as motos ficaram encaixadas umas nas outras o carro de apoio meio encavalitado no passadiço que não pode levantar. Nem me conseguia mexer, tinha meio metro de área para estar, rodeada pelas motos, por uma carrinha esmurrada e podre com um borrego preso no tecto, embrulhado num plástico, que balia desconsoladamente, galinhas a passear aos meus pés, alguidares de arroz e peixe fedorento, gente a falar muito depressa, trouxas de pano cheias de qualquer coisa com cheiro intenso. Sem nenhuma sombra para proteger, o sol não perdoou, aqueceu e queimou sem dó até me pintar de vermelho, até me fazer baixar a tensão e voltou a tontura e o sufoco, a atmosfera carregada e sufocante, a vontade de chegar ao outro lado.
Uma caixa rectangular, flutuante, com uma turbina na ponta e uma chaminé que deitava um fumo negro e intoxicante, dava pelo nome de barco, o barco que empurrava a barcaça. Encostou-se a ela e foi empurrando, lentamente, esforçadamente, junto aos arcos da ponte nova, até à outra margem. Aquela meia hora de travessia foi um desespero. Do outro lado, procurámos uma sombra e lá fiquei eu a comer açúcar e beber água e descansar da travessia mais perigosa que tivemos em toda a viagem, num país que também já nos tinha oferecido a pista mais difícil do percurso.
Percorri os últimos 60km até Bissau numa velocidade calma e atenta aos porcos e vacas que se atravessavam na estrada, atenta aquela paisagem cerrada, luxuriante, de árvores com nomes estranhos salpicadas de coqueiros, o verde emoldurado pelo vermelho da terra. Queria ir devagar, saborear o limite final da Viagem que iria acabar rapidamente. Os rapazes iam mais depressa, desapareceram ao longe, fiquei como de costume na companhia da imagem longínqua do carro de apoio reflectida no retrovisor. Percebe-se o aproximar da cidade, há mais carros na estrada, aparecem casas e mais casas, grandes vivendas, carros mais modernos, entra-se em Bissau sem se dar por isso, não há placa, não há indicações, há uma estrada que se transforma numa avenida enorme, com duas faixas de cada lado de um bocado de terra.
A confusão de trânsito vai aumentando, muita gente nas ruas, centenas de táxis Mercedes antigos azul metalizado, furgonetas esmurradas e ferrugentas misturam-se com carros de alta cilindrada de vidros escuros subidos, jipes e pick-ups agressivas e polidas. E muita gente no que parece um passeio, bancas de vendedores, casas degradadas com grades nas portas e janelas, buracos na estrada, crateras nos passeios, música alta, buzinadelas, travagens e discussões.
Só depois de passarmos a segunda vez pela Residencial Coimbra é que percebemos que aquela vivenda discreta era o Hotel onde iríamos ficar alojados, seguindo o conselho da mamã Fá que nos recomendou ao Alexandre, o proprietário do Hotel que é uma referência e um porto seguro para todos os Portugueses que viajam para Bissau.
São cinco da tarde e chegámos ao destino.
Percurso: 150 km
Total time: 6 horas
Saímos de Varela encantados com a hospitalidade. De novo os 50 km de pista difícil que não acabava, a ponte de ferro e traves, estrada de terra, lombas e buracos. Em Santo Domingo lá estava a minha motita à espera, no mesmo local, com os mesmos polícias sentados à sombra mas de traje à civil, hoje é sábado.
Pelo asfalto, em direcção ao destino, a viagem foi pacífica. Chegada ao rio Cacheu e ponte nova à vista, mas apenas à vista pois está pronta acabadinha de construir mas fechada ao trânsito à espera da inauguração oficial com pompa e circunstância. Desvio para uma entrada em terra de acesso ao cais da barcaça que nos levará ao outro lado. Quando vi a barcaça até me assustei. Tinha feito 6.000 km para isto. Chamam barcaça a uma coisa flutuante, com mais de 50 anos, de madeira carcomida e ferro ferrugento que range e flutua como por milagre, entulhada de carros, de gente, de animais e camiões TIR carregados de sacos. Uma fila esperava a entrada na barcaça, meia dúzia de carros e meia dúzia de camiões, estacionados sob um sol escaldante e rodeados por pequenas barracas de madeira podre onde se vendem latas de bebida mantidas em arcas de campismo, arroz cozinhado em potes velhos e nojentos, mangas e mangas secas e podres, tudo rodeado de lixo e infestado por moscas. Um camião TIR ensaiava entrar e sair da barcaça a ver se cabia, a barcaça abanava, rangia e a linha de água subia até fazer desistir o camião de passar naquela leva. Lá foi ela, sem o camião e lá ficamos nós à espera quase duas horas, a torrar ao sol, estômago colado às costas, a desejar que continuasse a haver barcaça para chegarmos ao destino.
Quando por fim embarcámos, no fim da linha, no extremo da plataforma flutuante, as motos ficaram encaixadas umas nas outras o carro de apoio meio encavalitado no passadiço que não pode levantar. Nem me conseguia mexer, tinha meio metro de área para estar, rodeada pelas motos, por uma carrinha esmurrada e podre com um borrego preso no tecto, embrulhado num plástico, que balia desconsoladamente, galinhas a passear aos meus pés, alguidares de arroz e peixe fedorento, gente a falar muito depressa, trouxas de pano cheias de qualquer coisa com cheiro intenso. Sem nenhuma sombra para proteger, o sol não perdoou, aqueceu e queimou sem dó até me pintar de vermelho, até me fazer baixar a tensão e voltou a tontura e o sufoco, a atmosfera carregada e sufocante, a vontade de chegar ao outro lado.
Uma caixa rectangular, flutuante, com uma turbina na ponta e uma chaminé que deitava um fumo negro e intoxicante, dava pelo nome de barco, o barco que empurrava a barcaça. Encostou-se a ela e foi empurrando, lentamente, esforçadamente, junto aos arcos da ponte nova, até à outra margem. Aquela meia hora de travessia foi um desespero. Do outro lado, procurámos uma sombra e lá fiquei eu a comer açúcar e beber água e descansar da travessia mais perigosa que tivemos em toda a viagem, num país que também já nos tinha oferecido a pista mais difícil do percurso.
Percorri os últimos 60km até Bissau numa velocidade calma e atenta aos porcos e vacas que se atravessavam na estrada, atenta aquela paisagem cerrada, luxuriante, de árvores com nomes estranhos salpicadas de coqueiros, o verde emoldurado pelo vermelho da terra. Queria ir devagar, saborear o limite final da Viagem que iria acabar rapidamente. Os rapazes iam mais depressa, desapareceram ao longe, fiquei como de costume na companhia da imagem longínqua do carro de apoio reflectida no retrovisor. Percebe-se o aproximar da cidade, há mais carros na estrada, aparecem casas e mais casas, grandes vivendas, carros mais modernos, entra-se em Bissau sem se dar por isso, não há placa, não há indicações, há uma estrada que se transforma numa avenida enorme, com duas faixas de cada lado de um bocado de terra.
A confusão de trânsito vai aumentando, muita gente nas ruas, centenas de táxis Mercedes antigos azul metalizado, furgonetas esmurradas e ferrugentas misturam-se com carros de alta cilindrada de vidros escuros subidos, jipes e pick-ups agressivas e polidas. E muita gente no que parece um passeio, bancas de vendedores, casas degradadas com grades nas portas e janelas, buracos na estrada, crateras nos passeios, música alta, buzinadelas, travagens e discussões.
Só depois de passarmos a segunda vez pela Residencial Coimbra é que percebemos que aquela vivenda discreta era o Hotel onde iríamos ficar alojados, seguindo o conselho da mamã Fá que nos recomendou ao Alexandre, o proprietário do Hotel que é uma referência e um porto seguro para todos os Portugueses que viajam para Bissau.
São cinco da tarde e chegámos ao destino.
Enampor - Varela (Guiné-Bissau)
12 de Junho 2009 – 14º dia de viagem
Saída de Enampor tarde. Foi um instante até à fronteira com a Guiné-Bissau. Não me lembro quantos km foram mas com o andamento que estamos qualquer centena de km é um pulinho. A saída do Senegal foi pacífica, a entrada na Guiné foi fantástica. Atirei um Bom Dia aos guardas da fronteira com a satisfação de estar a falar a minha língua. Fui retribuída com um bom dia de espanto de verem meia dúzia de Tugas de moto a aparecer por ali.
Nesta fronteira não pagámos nada. Já tínhamos o visto tirado em Lisboa, um bocado à conversa com os guardas sentados à sombra, carimbo e andar. Logo a seguir à fronteira é a vila de S. Domingos e a encruzilhada para a decisão. Ainda sobra um dia, hoje é sexta-feira e podemos ir já para Bissau e ficar lá dois dias ou tentar explorar um local que o Azevedo já tinha ouvido falar, a localidade de Varela, uma praia perdida onde mora uma portuguesa que tem um Hotel. Até lá é uma pista que o Comandante da polícia de S. Domingos disse que as motos passam bem, o problema é os carros. Desconfiada com aquela descrição, lá fui atrás dos rapazes. Logo nos primeiros km da pista percebemos o que ele queria dizer. Voltei para trás e pedi-lhe para guardar a moto. Não tenho nenhum fascínio por pistas difíceis, não me sinto capaz de fazer este percurso e estou cansada. E ainda bem que o fiz, em toda a viagem foi a pista mais difícil que apareceu. Chamar aquilo de pista até é um elogio, aquilo era uma sequência de lombas e buracos, areia e valas, mais lombas e buracos e uma ponte feita de barras de ferro calçada com barrotes de madeira, sobre um rio que viemos a saber estar cheio de crocodilos. 50 Km de solavancos e 2,5 horas até chegar ao destino.
Mas o destino é um oásis. Um Hotel de bungalows limpos e arejados, casa de banho com azulejos, empregados simpáticos e a D. Fátima, uma portuguesa com raízes guineenses, faladora, simpática, hospitaleira que assentou por lá e toma conta da aldeia, arranja medicamentos para os locais e conseguiu motiva-los a construir uma escola. Quatro horas da tarde e arranjou-nos um petisco para almoçar, contou a sua história e das suas raízes (a sua avó deu o nome ao Hotel) e explicou-nos como chegar até à praia.
Por uma pista de areia, daquelas em que quando se pára fica-se atascado, lá fomos todos dentro do carro de apoio, vertiginosamente pela estrada abaixo, a cruzar a areia do caminho. A praia de Varela é a perder de vista, enorme, de areia branca, sem ninguém, mar imenso, calor, água a 30 graus.
De molho naquele paraíso de silêncio, vimos aproximar-se um pescador com uma cesta cheia de peixe. Claro que os Tugas tinham de falar com ele e acabámos a comprar três peixes por 1,5 euros que comemos ao jantar cozido em caldo de limão. Uma delícia.
Percurso: 110 km
Total time: 4,5 horas
Saída de Enampor tarde. Foi um instante até à fronteira com a Guiné-Bissau. Não me lembro quantos km foram mas com o andamento que estamos qualquer centena de km é um pulinho. A saída do Senegal foi pacífica, a entrada na Guiné foi fantástica. Atirei um Bom Dia aos guardas da fronteira com a satisfação de estar a falar a minha língua. Fui retribuída com um bom dia de espanto de verem meia dúzia de Tugas de moto a aparecer por ali.
Nesta fronteira não pagámos nada. Já tínhamos o visto tirado em Lisboa, um bocado à conversa com os guardas sentados à sombra, carimbo e andar. Logo a seguir à fronteira é a vila de S. Domingos e a encruzilhada para a decisão. Ainda sobra um dia, hoje é sexta-feira e podemos ir já para Bissau e ficar lá dois dias ou tentar explorar um local que o Azevedo já tinha ouvido falar, a localidade de Varela, uma praia perdida onde mora uma portuguesa que tem um Hotel. Até lá é uma pista que o Comandante da polícia de S. Domingos disse que as motos passam bem, o problema é os carros. Desconfiada com aquela descrição, lá fui atrás dos rapazes. Logo nos primeiros km da pista percebemos o que ele queria dizer. Voltei para trás e pedi-lhe para guardar a moto. Não tenho nenhum fascínio por pistas difíceis, não me sinto capaz de fazer este percurso e estou cansada. E ainda bem que o fiz, em toda a viagem foi a pista mais difícil que apareceu. Chamar aquilo de pista até é um elogio, aquilo era uma sequência de lombas e buracos, areia e valas, mais lombas e buracos e uma ponte feita de barras de ferro calçada com barrotes de madeira, sobre um rio que viemos a saber estar cheio de crocodilos. 50 Km de solavancos e 2,5 horas até chegar ao destino.
Mas o destino é um oásis. Um Hotel de bungalows limpos e arejados, casa de banho com azulejos, empregados simpáticos e a D. Fátima, uma portuguesa com raízes guineenses, faladora, simpática, hospitaleira que assentou por lá e toma conta da aldeia, arranja medicamentos para os locais e conseguiu motiva-los a construir uma escola. Quatro horas da tarde e arranjou-nos um petisco para almoçar, contou a sua história e das suas raízes (a sua avó deu o nome ao Hotel) e explicou-nos como chegar até à praia.
Por uma pista de areia, daquelas em que quando se pára fica-se atascado, lá fomos todos dentro do carro de apoio, vertiginosamente pela estrada abaixo, a cruzar a areia do caminho. A praia de Varela é a perder de vista, enorme, de areia branca, sem ninguém, mar imenso, calor, água a 30 graus.
De molho naquele paraíso de silêncio, vimos aproximar-se um pescador com uma cesta cheia de peixe. Claro que os Tugas tinham de falar com ele e acabámos a comprar três peixes por 1,5 euros que comemos ao jantar cozido em caldo de limão. Uma delícia.
Percurso: 110 km
Total time: 4,5 horas
Baila – Enampor
11 de Junho 2009 – 13º dia de viagem
Rumo a Zinguinchor, por estrada de asfalto, a paisagem verde e espessa acompanhou-nos, as aldeias alinhadas com muros feitos de troncos cortados, árvores carregadas de mangas que caem no chão de maduras e enchem o ar com um cheiro fantástico. A única nota diferente era a quantidade de soldados isolados que havia ao longo da estrada, de metralhadora ao ombro a vigiar a estrada. Não mandavam parar, alguns cumprimentavam, encontrava-se por vezes jipes cheios de soldados , o exército sentia-se presente.
A seguir à cidade o Tour Leader encontrou um restaurante com ar decente para almoçar que tinha um menu com um prato de crocodilo. Durante a Viagem os almoços têm sido quase à hora do lanche, ainda bem que trago sempre comigo os restos do pequeno-almoço para trincar quando paro para tirar fotos. Depois a estrada de terra até à aldeia de Enampor foi muito rápida e chegámos a meio da tarde.
Enampor é um dos locais indígenas para turistas onde ainda há as casas tradicionais da região, o “Empluvium”, uma casa redonda com um pátio central, organizada em vários quartos onde vivia cada família. A construção quase fechada possibilitava a defesa contra os animais selvagens, a abertura central permite a respiração da casa e a iluminação. Os rapazes estavam com a adrenalina toda e ainda foram dar um pulinho até Cap Skirring. Eu fiquei à conversa com os locais a perguntar sobre os hábitos da região. Contaram-me sobre a organização da aldeia, também ela comunitária, contaram-me sobre a vida actual e que a falta de chuva tem tirado trabalho ao povo pois não podem cultivar. Descobri uma coisa interessante – actualmente há cada vez menos homens com mais de uma mulher pois com a escassez de trabalho não lhes é possível sustentar várias mulheres e filhos. Por isso agora os homens só têm uma mulher.
O pôr-do-sol apanhou-me sentada a observar a azáfama da aldeia e a pensar sobre a diferença abismal entre as cidades e o interior. No campo as crianças brincam alegremente, aproximam-se de nós e sorriem. Na estrada vêem-se filinhas de crianças que vêm da escola e cartazes a incentivar a ida à escola “Je veux aller à l’ecóle et reussir”. Por outro lado nas cidades as crianças têm o olhar mortiço, semblante triste, aproximam-se de mão esticada a pedir.
Percurso: 220 km
Total time: 5:30 horas
Está calor. O ar é pesado. Saímos para a estrada já passava das 10h da manhã. O percurso hoje é curto, o dia é para passear pela região. Estamos na zona de Casamance, uma das mais bonitas do Senegal mas uma região atribulada por uma guerra que dura há mais de 30 anos. Até Bigorna foi rápido e pacífico, aproveitámos para pôr gasolina, bem precioso por estas bandas. O posto de abastecimento estava fechado mas atestavam as viaturas com bidões de 5 litros que vendiam caro. Aliás, acabei por não perceber qual o preço do combustível no sul do Senegal pois cada vez que metia gasolina o preço era diferente, ia aumentado à medida que rolávamos para sul.
Rumo a Zinguinchor, por estrada de asfalto, a paisagem verde e espessa acompanhou-nos, as aldeias alinhadas com muros feitos de troncos cortados, árvores carregadas de mangas que caem no chão de maduras e enchem o ar com um cheiro fantástico. A única nota diferente era a quantidade de soldados isolados que havia ao longo da estrada, de metralhadora ao ombro a vigiar a estrada. Não mandavam parar, alguns cumprimentavam, encontrava-se por vezes jipes cheios de soldados , o exército sentia-se presente.
À entrada de Zinguinchor tivemos de parar. Uma placa a assinalar a polícia, um carro descaracterizado, homens com colete fluorescente mas sem uniforme. O Ricardo Azevedo já lá estava parado a abrir os bolsos, a despejar as malas da moto. Um homem mandou-me parar, pediu o passaporte, começou a fazer perguntas. De onde vem, para onde vão, é um rali? O carro de apoio parou 3 minutos depois e logo a seguir apareceu o resto dos rapazes. Mandaram despejar os bolsos, abrir as malas que tinham sido arrumadas nessa manhã, até me pediram para levantar o banco da moto. Aquilo era estranho pois eles não estavam fardados, nada simpáticos, começei a pensar se não seriam polícias a fazer algum biscate de sacar uns trocos a turistas medrosos. Mas os Tugas estavam calmos, mostraram tudo, as roupas sujas, os sacos de medicamentos, a lâmina da barba que não era utilizada há séculos. Acabaram por desistir.
A seguir à cidade o Tour Leader encontrou um restaurante com ar decente para almoçar que tinha um menu com um prato de crocodilo. Durante a Viagem os almoços têm sido quase à hora do lanche, ainda bem que trago sempre comigo os restos do pequeno-almoço para trincar quando paro para tirar fotos. Depois a estrada de terra até à aldeia de Enampor foi muito rápida e chegámos a meio da tarde.
Enampor é um dos locais indígenas para turistas onde ainda há as casas tradicionais da região, o “Empluvium”, uma casa redonda com um pátio central, organizada em vários quartos onde vivia cada família. A construção quase fechada possibilitava a defesa contra os animais selvagens, a abertura central permite a respiração da casa e a iluminação. Os rapazes estavam com a adrenalina toda e ainda foram dar um pulinho até Cap Skirring. Eu fiquei à conversa com os locais a perguntar sobre os hábitos da região. Contaram-me sobre a organização da aldeia, também ela comunitária, contaram-me sobre a vida actual e que a falta de chuva tem tirado trabalho ao povo pois não podem cultivar. Descobri uma coisa interessante – actualmente há cada vez menos homens com mais de uma mulher pois com a escassez de trabalho não lhes é possível sustentar várias mulheres e filhos. Por isso agora os homens só têm uma mulher.
O pôr-do-sol apanhou-me sentada a observar a azáfama da aldeia e a pensar sobre a diferença abismal entre as cidades e o interior. No campo as crianças brincam alegremente, aproximam-se de nós e sorriem. Na estrada vêem-se filinhas de crianças que vêm da escola e cartazes a incentivar a ida à escola “Je veux aller à l’ecóle et reussir”. Por outro lado nas cidades as crianças têm o olhar mortiço, semblante triste, aproximam-se de mão esticada a pedir.
Percurso: 220 km
Total time: 5:30 horas
Gambia – Baila (Senegal)
10 de Junho 2009 – 12º dia de viagem
Tumani Tenda é um acampamento ecológico para turistas, construído pelo povo Jola para ganhar dinheiro e ajudar a aldeia. Têm algumas casas rústicas prontas e o objectivo é conseguir construir 7 casas, uma por cada família que vive na aldeia (designam família aos membros com o mesmo apelido mas que é constituída por diversas famílias, ao todo, cerca de 300 pessoas na aldeia). Vivem em comunidade e partilham tudo, desde o campo de arroz, a horta das mulheres, os animais. Cultivam o seu sustento, pescam para consumo próprio e vendem alguns produtos no mercado da vila mais próxima, vila onde também há uma loja, um posto de polícia, internet e electricidade de um gerador.
De manhã acordámos tarde e os rapazes foram andar de piroga e tomar banho no rio que está mesmo coladinho ao acampamento. Estive à conversa com Kebba, o camp manager, homem calmo e ponderado, de olhar paciente e expressão de paz, daqueles em que se sente logo que podemos confiar. Esteve a falar da tribo, da Gambia e do projecto do acampamento. Já conseguiram construir uma escola, têm alguns medicamentos essenciais, todos sabem ler e escrever em Inglês, segunda língua do País e o grande sonho é conseguirem angariar dinheiro para comprar painéis solares para terem electricidade e poderem ter frigoríficos ligados o dia todo, pois apenas têm um minúsculo gerador que ligam à noite quando têm hóspedes. Fala com olhar sonhador e esperança de amealhar cerca de 1.000 euros, o preço de dois painéis solares que vão permitir o avanço tecnológico da aldeia.
Tocou-me a humildade daquele homem, daquele povo sorridente e resignado, senti-me envergonhada com um sonho tão difícil para eles e tão acessível para nós. Gostava de os ajudar.
Depois de um almoço delicioso, cozinhado em enormes potes de ferro e de uma sesta, pelas 4h da tarde partimos de novo de volta ao Senegal, rumo ao Sul, pois a Gambia é uma língua de terra, estreita e comprida, encravada no Senegal.
Por uma estrada asfaltada, excelente piso, por entre uma vegetação exuberante e colorida, a viagem foi pacífica, passamos por vários controlos de polícia, a passagem da fronteira rápida e sem peripécias. Pelas 6 horas da tarde chegamos a Baila, aldeia com um novo acampamento, novas cubatas, nova tribo mas o mesmo cheiro a manga no ar, o mesmo calor, a mesma humidade, continuámos a ver vacas a atravessar a estrada, porcos e galinhas, aldeias e vendas de fruta ao longo da estrada.
Nesta região do interior há pouco lixo plástico à beira da estrada, as casas das aldeias são alinhadas, têm quintais cercados por sebes de palha ou de troncos cortados, as crianças vêm a correr ouvir o barulho das motos, riem-se e acenam contentes.
O Azevedo contou que quando cá esteve todo este percurso era uma pista de terra vermelha e agora asfaltaram tudo, a estrada que atravessa a Gambia é uma estrada. Eu estou contente, ainda tenho receio de pistas, pouca experiência em terra e uma boa estrada permite-me canalizar a atenção para o que me rodeia, ver a paisagem, desfrutar das cores e dos cheiros, beber esta África. A pista já não é pista mas a paisagem não mudou, as árvores estão lá, as termiteiras estão lá, a terra continua vermelha, as cores são fantásticas, o mundo é imenso, tal como as fotos e o vídeo que devorei várias vezes antes de me inscrever para esta viagem.
Percurso: 60 km
Moving time: 1 h
Total time: 2 horas
Tumani Tenda é um acampamento ecológico para turistas, construído pelo povo Jola para ganhar dinheiro e ajudar a aldeia. Têm algumas casas rústicas prontas e o objectivo é conseguir construir 7 casas, uma por cada família que vive na aldeia (designam família aos membros com o mesmo apelido mas que é constituída por diversas famílias, ao todo, cerca de 300 pessoas na aldeia). Vivem em comunidade e partilham tudo, desde o campo de arroz, a horta das mulheres, os animais. Cultivam o seu sustento, pescam para consumo próprio e vendem alguns produtos no mercado da vila mais próxima, vila onde também há uma loja, um posto de polícia, internet e electricidade de um gerador.
De manhã acordámos tarde e os rapazes foram andar de piroga e tomar banho no rio que está mesmo coladinho ao acampamento. Estive à conversa com Kebba, o camp manager, homem calmo e ponderado, de olhar paciente e expressão de paz, daqueles em que se sente logo que podemos confiar. Esteve a falar da tribo, da Gambia e do projecto do acampamento. Já conseguiram construir uma escola, têm alguns medicamentos essenciais, todos sabem ler e escrever em Inglês, segunda língua do País e o grande sonho é conseguirem angariar dinheiro para comprar painéis solares para terem electricidade e poderem ter frigoríficos ligados o dia todo, pois apenas têm um minúsculo gerador que ligam à noite quando têm hóspedes. Fala com olhar sonhador e esperança de amealhar cerca de 1.000 euros, o preço de dois painéis solares que vão permitir o avanço tecnológico da aldeia.
Tocou-me a humildade daquele homem, daquele povo sorridente e resignado, senti-me envergonhada com um sonho tão difícil para eles e tão acessível para nós. Gostava de os ajudar.
Depois de um almoço delicioso, cozinhado em enormes potes de ferro e de uma sesta, pelas 4h da tarde partimos de novo de volta ao Senegal, rumo ao Sul, pois a Gambia é uma língua de terra, estreita e comprida, encravada no Senegal.
Por uma estrada asfaltada, excelente piso, por entre uma vegetação exuberante e colorida, a viagem foi pacífica, passamos por vários controlos de polícia, a passagem da fronteira rápida e sem peripécias. Pelas 6 horas da tarde chegamos a Baila, aldeia com um novo acampamento, novas cubatas, nova tribo mas o mesmo cheiro a manga no ar, o mesmo calor, a mesma humidade, continuámos a ver vacas a atravessar a estrada, porcos e galinhas, aldeias e vendas de fruta ao longo da estrada.
Nesta região do interior há pouco lixo plástico à beira da estrada, as casas das aldeias são alinhadas, têm quintais cercados por sebes de palha ou de troncos cortados, as crianças vêm a correr ouvir o barulho das motos, riem-se e acenam contentes.
O Azevedo contou que quando cá esteve todo este percurso era uma pista de terra vermelha e agora asfaltaram tudo, a estrada que atravessa a Gambia é uma estrada. Eu estou contente, ainda tenho receio de pistas, pouca experiência em terra e uma boa estrada permite-me canalizar a atenção para o que me rodeia, ver a paisagem, desfrutar das cores e dos cheiros, beber esta África. A pista já não é pista mas a paisagem não mudou, as árvores estão lá, as termiteiras estão lá, a terra continua vermelha, as cores são fantásticas, o mundo é imenso, tal como as fotos e o vídeo que devorei várias vezes antes de me inscrever para esta viagem.
Percurso: 60 km
Moving time: 1 h
Total time: 2 horas
Dakar - Gambia
9 Junho 2009 – 11º dia de viagem
A caminho da Gâmbia são só 270 km. Saímos do camping rumo a Rufisk para pôr gasolina, cidade que tivemos de atravessar e que demorou quase uma hora, com um trânsito caótico, milhares de pessoas na estrada, cabras, vacas, vendedores, camiões podres e vagarosos. 100 km à frente, no desvio em Fatik descobrimos que a barcaça que nos levaria até ao outro lado do rio estava avariada. Tivemos de subir até Kaolac e voltar para baixo de novo, mais cerca de 70 km que o plano inicial. Depois da cidade atalhámos por uma estrada cheia de buracos. Aquilo não era uma estrada, eram crateras rodeadas de alcatrão, era mais fácil ir pela berma, uma pista de cada lado da estrada por onde todos circulam. 80 km e duas horas e meia depois apanhámos de novo o track original, uma estrada boa que nos levou até à fronteira, uma linha entre dois países, cheia de lojas de cada lado, uma linha atulhada de gente.
Mal chegámos fomos rodeados por mulheres a vender sacos de caju, a vender mangas, homens a vender seguros que davam para todos os países de África, crianças a vender ervas, a pedir moedas, homens a querer comprar as motos. Eram persistentes, colantes, uma multidão a fazer negócio à conta dos incautos que se arriscam a um mero sorriso. O Carlos foi tratar da papelada e até foi grátis e rápido sair do Senegal. Uns metros à frente a Gambia e lá foi de novo o Tour Leader com a documentação toda, passaporte e documentos da moto. Ficámos por ali a ver o movimento dos vendedores que não olham a fronteiras e se movem entre os dois países a tentar vender tudo sem olhar a linhas entre países. A dinâmica da fronteira é única.
Enquanto estivemos à espera, a pensar se ainda conseguiríamos chegar ao destino com luz do dia, tivemos o privilégio de assistir a um acontecimento oficial e na 1ª fila. Estávamos nós sentados à sombra, debaixo da arcada junto ao posto da polícia na fronteira quando saiu de lá um homem com um apito. Posicionou-se cá fora, aprumado e apitou. Ouviu-se por toda a região. De seguida saíram os cinco guardas da fronteira, cada um com um uniforme diferente, em fila indiana, a marchar porta fora. Cá fora, viraram à esquerda ao som do apito e à ordem do primeiro, frente ao poste da bandeira, perfilaram-se em sentido. O chefe começou a descer a bandeira.
Entretanto o barulho da fronteira parou, todos se levantaram (inclusive nós), todos em sentido virados para a bandeira, os carros foram desligados, os vendedores calaram-se, silêncio das mulheres que vendem mangas e cajus, silêncio nas lojas, silêncio dos clientes, nos transeuntes, toda a área estava num silêncio absoluto. Só se ouviam os pássaros, todo o resto do mundo estava de pé, em sentido, calados, a olhar para a cerimónia. A bandeira baixou com a praxe toda, o chefe da guarda enrolou, viraram-se e lá foram eles de volta para o posto. Após o último apito a vida voltou aquele lugar. Surreal, uma experiência singular.
Nas três horas que estivemos à espera, completamente alagada em suor, roupa colada ao corpo, encharcada, tive tempo para pensar em como tudo é realmente relativo nesta vida. O que me poderia incomodar num dia normal de escritório em que o ar condicionado estivesse a funcionar mal, aqui faz parte da rotina, é hábito, é normal. Já não me incomoda o calor, a sede faz parte da viagem, a fome controla-se bem, as camadas de pó que invadiram o equipamento e lhe mudaram a cor são normais.
Conseguimos sair da fronteira ao pôr-do-sol e pagar apenas o preço oficial do visto, uma negociação difícil do nosso responsável da viagem com dotes de diplomata . Pelos relatos de outros viajantes estávamos à espera de gastar até 100 euros. Tivemos sorte.
Já era noite e ainda tínhamos de atravessar o rio Gambia. Para chegar ao cais de embarque foi uma gincana pelas ruas estreitas da aldeia de pescadores, ruas de areia, pois a estrada estava em obras, sem sinalização e não conseguíamos perceber as placas de desvio se é que as havia.
O cais de embarque é uma feira, aquela hora, completamente às escuras. Adivinhavam-se carretas de vendedores, carrinhas velhas e barulhentas cheias de mercadorias para vender no mercado em Banjul, pessoas a circular que apenas vislumbrávamos através da luz difusa das poucas lanternas que alguns afortunados tinham. O último barco é às 11h da noite e está uma fila interminável de viaturas para passar. O bilhete do barco custa apenas 30 cêntimos mas o desafio é passar à frente da fila de quase 70 carros, senão temos de dormir por aqui e passar amanhã de manhã. Como de costume, o Azevedo conseguiu negociar a ultrapassagem do carro de apoio para a frente da fila que nos custou 30 dollars da Gambia, 1.000 CFAs, duas lanternas e dois autocolantes.
Duas horas depois embarcámos e lá se atravessou o rio. Contornámos Banjul por uma circular em alcatrão, iluminada e com vários controlos de polícia. Mas ainda faltam cerca de 60 km até uma aldeia perdida no mato, por onde se chega por uma pista sem sinalização, pista que nem me apercebi se era fácil ou difícil, bendito GPS, aquela hora só interessava chegar.
Foi a primeira vez em toda a viagem que chegamos de noite, eram 2.30h da manhã quando chegamos a Tumani Tenda. Cansados e esfomeados fomos recebidos pelo chefe da tribo Jola e por mais alguns membros da aldeia que tinham o jantar à nossa espera. De uma simpatia como já é raro, acolheram-nos com grandes sorrisos. Devorámos o jantar, delicioso e farto. Aterrei na cama, sem banho, vestida, exausta.
Percurso: 310 km
Moving time: 7:15h
Total time: 16 horas
A caminho da Gâmbia são só 270 km. Saímos do camping rumo a Rufisk para pôr gasolina, cidade que tivemos de atravessar e que demorou quase uma hora, com um trânsito caótico, milhares de pessoas na estrada, cabras, vacas, vendedores, camiões podres e vagarosos. 100 km à frente, no desvio em Fatik descobrimos que a barcaça que nos levaria até ao outro lado do rio estava avariada. Tivemos de subir até Kaolac e voltar para baixo de novo, mais cerca de 70 km que o plano inicial. Depois da cidade atalhámos por uma estrada cheia de buracos. Aquilo não era uma estrada, eram crateras rodeadas de alcatrão, era mais fácil ir pela berma, uma pista de cada lado da estrada por onde todos circulam. 80 km e duas horas e meia depois apanhámos de novo o track original, uma estrada boa que nos levou até à fronteira, uma linha entre dois países, cheia de lojas de cada lado, uma linha atulhada de gente.
Mal chegámos fomos rodeados por mulheres a vender sacos de caju, a vender mangas, homens a vender seguros que davam para todos os países de África, crianças a vender ervas, a pedir moedas, homens a querer comprar as motos. Eram persistentes, colantes, uma multidão a fazer negócio à conta dos incautos que se arriscam a um mero sorriso. O Carlos foi tratar da papelada e até foi grátis e rápido sair do Senegal. Uns metros à frente a Gambia e lá foi de novo o Tour Leader com a documentação toda, passaporte e documentos da moto. Ficámos por ali a ver o movimento dos vendedores que não olham a fronteiras e se movem entre os dois países a tentar vender tudo sem olhar a linhas entre países. A dinâmica da fronteira é única.
Enquanto estivemos à espera, a pensar se ainda conseguiríamos chegar ao destino com luz do dia, tivemos o privilégio de assistir a um acontecimento oficial e na 1ª fila. Estávamos nós sentados à sombra, debaixo da arcada junto ao posto da polícia na fronteira quando saiu de lá um homem com um apito. Posicionou-se cá fora, aprumado e apitou. Ouviu-se por toda a região. De seguida saíram os cinco guardas da fronteira, cada um com um uniforme diferente, em fila indiana, a marchar porta fora. Cá fora, viraram à esquerda ao som do apito e à ordem do primeiro, frente ao poste da bandeira, perfilaram-se em sentido. O chefe começou a descer a bandeira.
Entretanto o barulho da fronteira parou, todos se levantaram (inclusive nós), todos em sentido virados para a bandeira, os carros foram desligados, os vendedores calaram-se, silêncio das mulheres que vendem mangas e cajus, silêncio nas lojas, silêncio dos clientes, nos transeuntes, toda a área estava num silêncio absoluto. Só se ouviam os pássaros, todo o resto do mundo estava de pé, em sentido, calados, a olhar para a cerimónia. A bandeira baixou com a praxe toda, o chefe da guarda enrolou, viraram-se e lá foram eles de volta para o posto. Após o último apito a vida voltou aquele lugar. Surreal, uma experiência singular.
Nas três horas que estivemos à espera, completamente alagada em suor, roupa colada ao corpo, encharcada, tive tempo para pensar em como tudo é realmente relativo nesta vida. O que me poderia incomodar num dia normal de escritório em que o ar condicionado estivesse a funcionar mal, aqui faz parte da rotina, é hábito, é normal. Já não me incomoda o calor, a sede faz parte da viagem, a fome controla-se bem, as camadas de pó que invadiram o equipamento e lhe mudaram a cor são normais.
Conseguimos sair da fronteira ao pôr-do-sol e pagar apenas o preço oficial do visto, uma negociação difícil do nosso responsável da viagem com dotes de diplomata . Pelos relatos de outros viajantes estávamos à espera de gastar até 100 euros. Tivemos sorte.
Já era noite e ainda tínhamos de atravessar o rio Gambia. Para chegar ao cais de embarque foi uma gincana pelas ruas estreitas da aldeia de pescadores, ruas de areia, pois a estrada estava em obras, sem sinalização e não conseguíamos perceber as placas de desvio se é que as havia.
O cais de embarque é uma feira, aquela hora, completamente às escuras. Adivinhavam-se carretas de vendedores, carrinhas velhas e barulhentas cheias de mercadorias para vender no mercado em Banjul, pessoas a circular que apenas vislumbrávamos através da luz difusa das poucas lanternas que alguns afortunados tinham. O último barco é às 11h da noite e está uma fila interminável de viaturas para passar. O bilhete do barco custa apenas 30 cêntimos mas o desafio é passar à frente da fila de quase 70 carros, senão temos de dormir por aqui e passar amanhã de manhã. Como de costume, o Azevedo conseguiu negociar a ultrapassagem do carro de apoio para a frente da fila que nos custou 30 dollars da Gambia, 1.000 CFAs, duas lanternas e dois autocolantes.
Duas horas depois embarcámos e lá se atravessou o rio. Contornámos Banjul por uma circular em alcatrão, iluminada e com vários controlos de polícia. Mas ainda faltam cerca de 60 km até uma aldeia perdida no mato, por onde se chega por uma pista sem sinalização, pista que nem me apercebi se era fácil ou difícil, bendito GPS, aquela hora só interessava chegar.
Foi a primeira vez em toda a viagem que chegamos de noite, eram 2.30h da manhã quando chegamos a Tumani Tenda. Cansados e esfomeados fomos recebidos pelo chefe da tribo Jola e por mais alguns membros da aldeia que tinham o jantar à nossa espera. De uma simpatia como já é raro, acolheram-nos com grandes sorrisos. Devorámos o jantar, delicioso e farto. Aterrei na cama, sem banho, vestida, exausta.
Percurso: 310 km
Moving time: 7:15h
Total time: 16 horas
St. Louis - Dakar
8 de Junho 2009 - 10º dia de viagem
Que diferença entre as estradas interiores e a estrada principal. Pelo interior vemos muitas aldeias, mercados nas ruas, mulheres a vender mangas e papaias. Centenas de sacos de cebolas prontos para serem recolhidos à beira da estrada. Crianças, há centenas de crianças por todo o lado, sorridentes. E jogos de matraquilhos. Sim, surpreendente, nesta região do Senegal por todo o lado se vêm crianças a jogar matraquilhos. A paisagem está salpicada de Baubas, gigantescas árvores com troncos em copa que alojam milhares de ninhos de pássaros. A terra é vermelha, o sol é a pique.
Ao longo da estrada principal a paisagem é descaracterizada. Vêem-se muitos camiões, velhos, ferrugentos, lentos. As aldeias são de tijolo cinza, paredes erguidas e inacabadas. Há muito lixo à beira da estrada. Os mercados são confusos, atulhados de bancas, carroças e gente.
Já perto de Dakar decidimos ir primeiro visitar a reserva de Bandia, mesmo no meio do Parque Nacional Langue de Barbárie que ficava em caminho. A reserva tem uns passeios safari, com uns jipes transformados para turistas com três filas de assentos na caixa. Pelas 3h da tarde, na hora do calor os bichos estavam debaixo das árvores, à sombra, meio escondidos mas o guia sabia onde os encontrar. Passamos cerca de duas horas a passear pela reserva e quando chegamos perto dos rinocerontes a minha máquina ficou sem bateria. Raios, só faltava isto.
Para chegar a Lac Rose, andámos pelo interior, por pistas com piso difícil, toneladas de pó, horas de buracos e desembocámos mesmo no meio das salinas de Lac Rose, um lago salgado, imenso, com tom rosado que é uma mina de sal. Vêem-se montes de sal em bruto de branco cinza, alinhados ao longo do lago. O Hotel é do outro lado onde chegámos ao entardecer sempre pela margem do lago, cansados, suados e cheios de pó. Ainda bem que vim no carro de apoio, com a minha falta de experiência em terra e a quantidade de pistas que fizemos hoje, de certeza a viagem tinha corrido mais lenta e atribulada.
Como prémio descobrimos que o Hotel tem piscina. Foi apenas tempo de largar o equipamento, vestir o fato de banho e correr para a piscina. Mas não, ainda não era agora, o guarda do Hotel veio informar que a tradição era primeiro tomar banho no lago, uns metros à frente, numa praia fluvial. A água é escura, morna, caldo. O guarda fazia gestos para entrarmos devagar e não mergulhar pois era perigoso a água na boca e nos olhos. Fazia sinal para nos deitarmos lentamente. Como a água é incrivelmente salgada, nada se afunda. Foi como deitar no sofá, boiar sem qualquer esforço. Aquele caldo quente aconchegou, relaxou os músculos, aqueceu a alma depois do tormento para chegar ali.
A saída para a piscina tem uma praxe, uma passagem por uma nascente de água doce onde o guarda apanha água com um pequeno balde e nos deitava pela cabeça abaixo, água límpida e fria. Retemperados depois do merecido banho de piscina, jantámos e descansámos. Amanhã vamos passar a fronteira para a Gambia, adivinha-se mais uma negociação difícil.
Percurso: 294 km
Saímos pelas 9 da manhã. Ainda com algum desarranjo intestinal, decidimos que era melhor por a minha moto na carrinha para prevenir alguma emergência e não atrasar o Grupo ou comprometer o dia de viagem. O Azevedo tinha pensado ir pela pista da praia mas a maré estava cheia e não foi possível. Pela pista até à estrada principal, direcção sul por mais pista razoável até Louga. Apanhamos alcatrão até Thies onde conseguimos chegar à hora de almoço. Atestaram-se os depósitos pois por esta região a gasolina é um bem raro no interior e temos de aproveitar a passagem nas cidades para abastecer. Numa pastelaria que por fora até parecia chique, os rapazes contentaram-se com umas sandes de galinha frita embrulhadas em papel de jornal, acompanhadas pelas bebidas possíveis e uns sacos onde “engarrafam” água. Aquilo até cheirava bem mas para mim dava-me enjoos. Comi um bocado de pão com manteiga.
Saímos pelas 9 da manhã. Ainda com algum desarranjo intestinal, decidimos que era melhor por a minha moto na carrinha para prevenir alguma emergência e não atrasar o Grupo ou comprometer o dia de viagem. O Azevedo tinha pensado ir pela pista da praia mas a maré estava cheia e não foi possível. Pela pista até à estrada principal, direcção sul por mais pista razoável até Louga. Apanhamos alcatrão até Thies onde conseguimos chegar à hora de almoço. Atestaram-se os depósitos pois por esta região a gasolina é um bem raro no interior e temos de aproveitar a passagem nas cidades para abastecer. Numa pastelaria que por fora até parecia chique, os rapazes contentaram-se com umas sandes de galinha frita embrulhadas em papel de jornal, acompanhadas pelas bebidas possíveis e uns sacos onde “engarrafam” água. Aquilo até cheirava bem mas para mim dava-me enjoos. Comi um bocado de pão com manteiga.
Que diferença entre as estradas interiores e a estrada principal. Pelo interior vemos muitas aldeias, mercados nas ruas, mulheres a vender mangas e papaias. Centenas de sacos de cebolas prontos para serem recolhidos à beira da estrada. Crianças, há centenas de crianças por todo o lado, sorridentes. E jogos de matraquilhos. Sim, surpreendente, nesta região do Senegal por todo o lado se vêm crianças a jogar matraquilhos. A paisagem está salpicada de Baubas, gigantescas árvores com troncos em copa que alojam milhares de ninhos de pássaros. A terra é vermelha, o sol é a pique.
Ao longo da estrada principal a paisagem é descaracterizada. Vêem-se muitos camiões, velhos, ferrugentos, lentos. As aldeias são de tijolo cinza, paredes erguidas e inacabadas. Há muito lixo à beira da estrada. Os mercados são confusos, atulhados de bancas, carroças e gente.
Já perto de Dakar decidimos ir primeiro visitar a reserva de Bandia, mesmo no meio do Parque Nacional Langue de Barbárie que ficava em caminho. A reserva tem uns passeios safari, com uns jipes transformados para turistas com três filas de assentos na caixa. Pelas 3h da tarde, na hora do calor os bichos estavam debaixo das árvores, à sombra, meio escondidos mas o guia sabia onde os encontrar. Passamos cerca de duas horas a passear pela reserva e quando chegamos perto dos rinocerontes a minha máquina ficou sem bateria. Raios, só faltava isto.
Para chegar a Lac Rose, andámos pelo interior, por pistas com piso difícil, toneladas de pó, horas de buracos e desembocámos mesmo no meio das salinas de Lac Rose, um lago salgado, imenso, com tom rosado que é uma mina de sal. Vêem-se montes de sal em bruto de branco cinza, alinhados ao longo do lago. O Hotel é do outro lado onde chegámos ao entardecer sempre pela margem do lago, cansados, suados e cheios de pó. Ainda bem que vim no carro de apoio, com a minha falta de experiência em terra e a quantidade de pistas que fizemos hoje, de certeza a viagem tinha corrido mais lenta e atribulada.
Como prémio descobrimos que o Hotel tem piscina. Foi apenas tempo de largar o equipamento, vestir o fato de banho e correr para a piscina. Mas não, ainda não era agora, o guarda do Hotel veio informar que a tradição era primeiro tomar banho no lago, uns metros à frente, numa praia fluvial. A água é escura, morna, caldo. O guarda fazia gestos para entrarmos devagar e não mergulhar pois era perigoso a água na boca e nos olhos. Fazia sinal para nos deitarmos lentamente. Como a água é incrivelmente salgada, nada se afunda. Foi como deitar no sofá, boiar sem qualquer esforço. Aquele caldo quente aconchegou, relaxou os músculos, aqueceu a alma depois do tormento para chegar ali.
A saída para a piscina tem uma praxe, uma passagem por uma nascente de água doce onde o guarda apanha água com um pequeno balde e nos deitava pela cabeça abaixo, água límpida e fria. Retemperados depois do merecido banho de piscina, jantámos e descansámos. Amanhã vamos passar a fronteira para a Gambia, adivinha-se mais uma negociação difícil.
St- Louis
7 Junho 2009 - 9º dia de Viagem
Dia de descanso
Já tinha acontecido a quase todos, mais ou menos intensamente. Foi a minha vez. Ontem durante o dia andava a sentir-me mal e à noite deu-se o caos. Depois da visita nocturna à cidade, cheguei ao bungalow e corri para a casa de banho. Passei a noite toda a escaldar, a suar, a delirar, a correr para a casa de banho. De manhã estava de rastos.
Ao pequeno-almoço tive uma excelente notícia - o Grupo estava a decidir ficar por aqui. O local é fabuloso, acolhedor, praia a 1 metro, calor. Vamos descansar. Não comi nada. Tomei um chá e voltei para o quarto. Vegetei a manhã toda. Ao almoço qualquer cheiro me enjoava. Bebi outro chá, dei uma dentada numa torrada, tomei os comprimidos que o Dr. TBernardo mandou. Segui à risca as instruções que me tinha dado para estes casos. Voltei para a cama e dormi a tarde toda. Acordei ao fim da tarde. A diarreia tinha acalmado.
Ainda debilitada decidi ir dar uma volta. Afinal estava num sítio paradisíaco e nem tinha visto nada. O Zebra Bar é um local de paragem para viajantes, propriedade de um suíço que montou um acampamento ecológico, onde tudo funciona com painéis solares. É colorido, limpo, cheio de vegetação, em cima da praia, condições fabulosas.
Ao jantar já consegui comer as batatas cozidas e bebi mais chá. Dormi mais 10 horas. De manhã acordei mais recuperada.
Dia de descanso
Já tinha acontecido a quase todos, mais ou menos intensamente. Foi a minha vez. Ontem durante o dia andava a sentir-me mal e à noite deu-se o caos. Depois da visita nocturna à cidade, cheguei ao bungalow e corri para a casa de banho. Passei a noite toda a escaldar, a suar, a delirar, a correr para a casa de banho. De manhã estava de rastos.
Ao pequeno-almoço tive uma excelente notícia - o Grupo estava a decidir ficar por aqui. O local é fabuloso, acolhedor, praia a 1 metro, calor. Vamos descansar. Não comi nada. Tomei um chá e voltei para o quarto. Vegetei a manhã toda. Ao almoço qualquer cheiro me enjoava. Bebi outro chá, dei uma dentada numa torrada, tomei os comprimidos que o Dr. TBernardo mandou. Segui à risca as instruções que me tinha dado para estes casos. Voltei para a cama e dormi a tarde toda. Acordei ao fim da tarde. A diarreia tinha acalmado.
Ainda debilitada decidi ir dar uma volta. Afinal estava num sítio paradisíaco e nem tinha visto nada. O Zebra Bar é um local de paragem para viajantes, propriedade de um suíço que montou um acampamento ecológico, onde tudo funciona com painéis solares. É colorido, limpo, cheio de vegetação, em cima da praia, condições fabulosas.
Ao jantar já consegui comer as batatas cozidas e bebi mais chá. Dormi mais 10 horas. De manhã acordei mais recuperada.

Cheguei a Bissau
Sábado, dia 13 de Junho 2009 - 5h da tarde
Depois de passear, explorar e vadiar pelo interior do Senegal, da Gambia e da Guiné-Bissau, por uma espécie de estradas, por pistas, por acampamentos e aldeias perdidas, sem Net nem sequer electricidade .......
CHEGUEI A BISSAU !!!!
Tenho quase uma semana de aventuras para contar ...... foi tudo tão rápido e fantástico que só tive tempo de anotar no caderno. Durante a semana vou passando para aqui.
Obrigada a todos pelas palavras de apoio. Fizeram-me querer ainda mais relatar todas as histórias, incentivaram-me, estiveram comigo.
Mas mais importante foi o facto de que a moto funcionou sempre bem, bebeu gasolina de todas as cores e consistencias, não foi preciso meter óleo, nada avariou e está prontinha para nova viagem. Um grande e imenso obrigada ao João Monteiro e à equipa da MOTOMIL que me preparou a moto, que me ensinou mecânica de prevenção, que me aturou.
Eng Martins de Carvalho, estou pronta para o almoço prometido :-) :-) :-)
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Depois de passear, explorar e vadiar pelo interior do Senegal, da Gambia e da Guiné-Bissau, por uma espécie de estradas, por pistas, por acampamentos e aldeias perdidas, sem Net nem sequer electricidade .......
CHEGUEI A BISSAU !!!!
Tenho quase uma semana de aventuras para contar ...... foi tudo tão rápido e fantástico que só tive tempo de anotar no caderno. Durante a semana vou passando para aqui.
Obrigada a todos pelas palavras de apoio. Fizeram-me querer ainda mais relatar todas as histórias, incentivaram-me, estiveram comigo.
Mas mais importante foi o facto de que a moto funcionou sempre bem, bebeu gasolina de todas as cores e consistencias, não foi preciso meter óleo, nada avariou e está prontinha para nova viagem. Um grande e imenso obrigada ao João Monteiro e à equipa da MOTOMIL que me preparou a moto, que me ensinou mecânica de prevenção, que me aturou.
Eng Martins de Carvalho, estou pronta para o almoço prometido :-) :-) :-)
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Nouakchott - St. Louis
6 de Junho 2009 – 8º dia de Viagem
Percurso: 384 km
Moving time: 5:17h
Total time: 10 horas
Temperatura média: 36 graus
Saímos cedo. Hoje temos apenas 300 km até à fronteira. Apenas. É engraçado como a noção da distância é tão relativa, normalmente 300 km é uma distância considerável, hoje parece pequena.
Ainda demorámos uns 20 km para sair da cidade e apanhar estrada limpa, uma estrada cada vez mais degradada, muitos buracos, asfalto estalado. A paisagem começa a largar a areia, pouco a pouco a vegetação aparece, rasteira, árvores pequenas, a terra passa a ser terra, estamos a entrar numa zona mais fértil. Há muita vida ao longo da estrada, encontram-se muitas aldeias, há mercados à beira da estrada, há camelos à beira da estrada que ao longo dos quilómetros vão rareando para aparecerem muitos cabritos e vacas brancas de longos chifres. A arquitectura muda, há cada vez menos tendas e mais casinhas quadradas de telhado bicudo, coloridas de azul e verde-água. Muitas crianças vêm a correr, acenar.
Os 200 km até Rosso foram feitos sem parar e cerca das 11 horas estávamos a abastecer em Rosso. Evitamos esta fronteira conhecida pela mais corrupta da África Ocidental, viramos à direita para uma pista de terra que nos leva até Diama, uma fronteira perdida e apenas utilizada por viajantes, onde é provável a passagem ser mais rápida e barata. A pista é difícil, uma velha estrada enterrada pela terra e pelo pó, buracos, chão ondulado, muito pó. A paisagem é soberba, há pequenos rios, zonas muito verdes e cultivadas, 120 km de pista que demorámos mais de 2 horas a fazer. Ao atravessar o Parc National de Diawling, parámos para almoçar, estilo pic-nic, debaixo de uma tenda ao abrigo do sol escaldante. O guarda do Parque fez-nos companhia, pacientemente, até acabarmos, para nos cobrar 1.000 ouguiyas pela passagem do parque. Dez quilómetros à frente a fronteira entre a Mauritânia e o Senegal e o fim da pista e do pó que entranhou e pintou tudo de castanho.
No posto da alfândega pagámos 10 euros pela saída dos veículos. De seguida o homem da polícia pediu-nos mais 10 € pelo carimbo de saída no passaporte e o Azevedo não quis pagar. Andámos por ali cerca de uma hora e então o Carlos foi negociar de novo e acabámos a pagar metade do preço. Lá saímos da Mauritânia, país onde se paga para entrar e se paga para sair.
Na ponte da barragem de Diama por entre os dois países há uma portagem, onde nos pediram mais 10€ para abrir a cancela. O guarda até era simpático e foi hilariante ver o Enrique a negociar em espanhol e o homem a responder em francês. Acabamos a pagar metade.
E cá estamos nós, no Senegal, uma fronteira complicada, um processo que até parece um circuito pelo centro comercial às compras de carimbos. Primeiro na polícia, o carimbo no passaporte, depois a alfândega para a entrada dos veículos e compra do Passe-Avant. O inspector da alfândega que tinha cara de comerciante, recolheu a documentação toda, inspeccionou a carrinha e até obrigou a abrir as 3 caixas de livros escolares que levamos para a organização ATLAS, organização não governamental de solidariedade que tem projectos na Guiné-Bissau.
Oh-lá-lá … 3 caixas …. é complicado, é complicado ….. aqui no Senegal tudo tem de ser controlado … dizia o inspector a preparar-se para subir o preço da entrada. E lá foi o Tour líder, instalou-se no gabinete da alfândega, ouvíamos conversa, risos e mais conversa e acabamos a pagar apenas o valor oficial – 20 euros (tivemos muita sorte pois os franceses que passaram lá antes de nós desembolsaram 100€ cada um). Mas ainda não acabou, ainda falta fazer o seguro obrigatório que nos custou mais 15 euros, vendido pela Madame Poutá e negociado, claro, pois o primeiro preço estava nos 25 euros. Resumindo e concluindo, em 300 metros desembolsámos 55 euros. Mas pelas histórias contadas por outros viajantes até foi barato ou o nosso Tour Leader não fosse um excelente diplomata que acaba sempre por negociar boas compras.
Ao fim da tarde, por uma pista de terra, chegamos ao alojamento, situado no meio do Parque Langue de Barbarie, o ZEBRA BAR, um parque de campismo com uns bungalows fantásticos, em cima da praia. Jantámos no terraço a ouvir os pássaros e a ver sombras de animais a passar por entre o parque. Eu não jantei, estava enjoada. Ainda aguentei duas horas de passeio pela cidade de St. Louis à noite, uma ilha encravada no rio Senegal, com casas coloniais um pouco degradadas, muita gente nas ruas. Sábado à noite é dia de festa.
As raparigas senegalesas são lindas, altas e esguias, têm longos cabelos, esticados, de preto brilhante, movem-se como gazelas. As mulheres são generosas, alegres e sorridentes, vestem roupas incrivelmente coloridas, berrantes, com grandes lenços na cabeça atados com laços artísticos. Ouve-se música em todo o lado.
Percurso: 384 km
Moving time: 5:17h
Total time: 10 horas
Temperatura média: 36 graus
Saímos cedo. Hoje temos apenas 300 km até à fronteira. Apenas. É engraçado como a noção da distância é tão relativa, normalmente 300 km é uma distância considerável, hoje parece pequena.
Ainda demorámos uns 20 km para sair da cidade e apanhar estrada limpa, uma estrada cada vez mais degradada, muitos buracos, asfalto estalado. A paisagem começa a largar a areia, pouco a pouco a vegetação aparece, rasteira, árvores pequenas, a terra passa a ser terra, estamos a entrar numa zona mais fértil. Há muita vida ao longo da estrada, encontram-se muitas aldeias, há mercados à beira da estrada, há camelos à beira da estrada que ao longo dos quilómetros vão rareando para aparecerem muitos cabritos e vacas brancas de longos chifres. A arquitectura muda, há cada vez menos tendas e mais casinhas quadradas de telhado bicudo, coloridas de azul e verde-água. Muitas crianças vêm a correr, acenar.
Os 200 km até Rosso foram feitos sem parar e cerca das 11 horas estávamos a abastecer em Rosso. Evitamos esta fronteira conhecida pela mais corrupta da África Ocidental, viramos à direita para uma pista de terra que nos leva até Diama, uma fronteira perdida e apenas utilizada por viajantes, onde é provável a passagem ser mais rápida e barata. A pista é difícil, uma velha estrada enterrada pela terra e pelo pó, buracos, chão ondulado, muito pó. A paisagem é soberba, há pequenos rios, zonas muito verdes e cultivadas, 120 km de pista que demorámos mais de 2 horas a fazer. Ao atravessar o Parc National de Diawling, parámos para almoçar, estilo pic-nic, debaixo de uma tenda ao abrigo do sol escaldante. O guarda do Parque fez-nos companhia, pacientemente, até acabarmos, para nos cobrar 1.000 ouguiyas pela passagem do parque. Dez quilómetros à frente a fronteira entre a Mauritânia e o Senegal e o fim da pista e do pó que entranhou e pintou tudo de castanho.
No posto da alfândega pagámos 10 euros pela saída dos veículos. De seguida o homem da polícia pediu-nos mais 10 € pelo carimbo de saída no passaporte e o Azevedo não quis pagar. Andámos por ali cerca de uma hora e então o Carlos foi negociar de novo e acabámos a pagar metade do preço. Lá saímos da Mauritânia, país onde se paga para entrar e se paga para sair.
Na ponte da barragem de Diama por entre os dois países há uma portagem, onde nos pediram mais 10€ para abrir a cancela. O guarda até era simpático e foi hilariante ver o Enrique a negociar em espanhol e o homem a responder em francês. Acabamos a pagar metade.
E cá estamos nós, no Senegal, uma fronteira complicada, um processo que até parece um circuito pelo centro comercial às compras de carimbos. Primeiro na polícia, o carimbo no passaporte, depois a alfândega para a entrada dos veículos e compra do Passe-Avant. O inspector da alfândega que tinha cara de comerciante, recolheu a documentação toda, inspeccionou a carrinha e até obrigou a abrir as 3 caixas de livros escolares que levamos para a organização ATLAS, organização não governamental de solidariedade que tem projectos na Guiné-Bissau.
Oh-lá-lá … 3 caixas …. é complicado, é complicado ….. aqui no Senegal tudo tem de ser controlado … dizia o inspector a preparar-se para subir o preço da entrada. E lá foi o Tour líder, instalou-se no gabinete da alfândega, ouvíamos conversa, risos e mais conversa e acabamos a pagar apenas o valor oficial – 20 euros (tivemos muita sorte pois os franceses que passaram lá antes de nós desembolsaram 100€ cada um). Mas ainda não acabou, ainda falta fazer o seguro obrigatório que nos custou mais 15 euros, vendido pela Madame Poutá e negociado, claro, pois o primeiro preço estava nos 25 euros. Resumindo e concluindo, em 300 metros desembolsámos 55 euros. Mas pelas histórias contadas por outros viajantes até foi barato ou o nosso Tour Leader não fosse um excelente diplomata que acaba sempre por negociar boas compras.
Ao fim da tarde, por uma pista de terra, chegamos ao alojamento, situado no meio do Parque Langue de Barbarie, o ZEBRA BAR, um parque de campismo com uns bungalows fantásticos, em cima da praia. Jantámos no terraço a ouvir os pássaros e a ver sombras de animais a passar por entre o parque. Eu não jantei, estava enjoada. Ainda aguentei duas horas de passeio pela cidade de St. Louis à noite, uma ilha encravada no rio Senegal, com casas coloniais um pouco degradadas, muita gente nas ruas. Sábado à noite é dia de festa.
As raparigas senegalesas são lindas, altas e esguias, têm longos cabelos, esticados, de preto brilhante, movem-se como gazelas. As mulheres são generosas, alegres e sorridentes, vestem roupas incrivelmente coloridas, berrantes, com grandes lenços na cabeça atados com laços artísticos. Ouve-se música em todo o lado.
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